Todo inverno, hospitais brasileiros registram o mesmo fenômeno: uma elevação brusca nas internações por complicações respiratórias, com o pico concentrado em pessoas acima de 60 anos. Em 2025, o Sistema de Informações Hospitalares do SUS registrou mais de 180 mil internações por pneumonia nessa faixa etária entre os meses de junho e agosto — o trimestre mais frio do ano no hemisfério sul. Não é coincidência. O sistema imunológico muda com o tempo, e a gripe que em um jovem passa em três dias pode, em alguém com mais de 60, evoluir para uma pneumonia que exige UTI.
O problema não é o frio em si. O frio não causa gripe — o vírus causa. Mas o inverno cria as condições ideais para que o vírus circule: pessoas ficam mais tempo em ambientes fechados e mal ventilados, a mucosa das vias aéreas resseca com o ar mais seco e perde parte de sua capacidade de barreira, e o sistema imunológico, que já opera com menor eficiência após os 60 anos, enfrenta um maior volume de exposição ao vírus influenza e a seus subtipos. O resultado é uma tempestade perfeita que se repete com pontualidade todo ano — e que pode ser interrompida com medidas simples, mas específicas.
O que separa quem passa o inverno bem de quem acaba numa enfermaria não é, na maioria dos casos, sorte. É uma combinação de vacinação no prazo certo, reconhecimento precoce dos sinais de alerta e cuidados preventivos que a maioria das pessoas conhece de nome mas não pratica com consistência. Este texto vai direto nesses pontos.
A primeira distinção que importa é entre gripe e resfriado comum — porque o tratamento, a vigilância e o risco são completamente diferentes. O resfriado comum é causado por rinovírus e coronavírus sazonais, tem início gradual, sintomas concentrados nas vias aéreas superiores (coriza, espirro, garganta arranhada) e raramente provoca febre alta. Passa em 5 a 7 dias sem tratamento específico.
A gripe, causada pelo vírus Influenza A ou B, tem início abrupto — você acorda bem e em poucas horas está com febre alta, dor de cabeça intensa, dores musculares generalizadas e prostração severa. A febre da gripe costuma passar de 38,5°C e dura de 3 a 5 dias. O que torna a gripe perigosa após os 60 anos não é a fase aguda em si, mas as complicações que podem vir depois: pneumonia bacteriana secundária, descompensação de doenças crônicas (hipertensão, diabetes, insuficiência cardíaca) e, em casos mais graves, sepse.
Pessoas acima de 60 anos representam cerca de 75% das mortes por complicações de gripe no Brasil, segundo o Ministério da Saúde. O risco de hospitalização por influenza nessa faixa etária é de 5 a 10 vezes maior do que em adultos jovens saudáveis.
O sistema imunológico sofre um processo chamado imunossenescência — uma redução gradual e progressiva da capacidade de resposta imune com o envelhecimento. Os linfócitos T, responsáveis por combater vírus, perdem eficiência. A produção de anticorpos após vacinação é menor e mais lenta. E a resposta inflamatória, que deveria ser localizada e controlada, pode escapar de controle e afetar órgãos além do pulmão. Isso explica por que a gripe que "era só uma gripe" nos 40 anos pode ser uma doença séria aos 65.
Vacinação: o que tomar, quando e onde
A vacina contra influenza é a intervenção com maior evidência de eficácia na prevenção de hospitalizações e mortes por gripe após os 60 anos. O Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde oferece a vacina gratuitamente em todas as Unidades Básicas de Saúde (UBS) do país, com prioridade para pessoas acima de 60 anos durante a Campanha Nacional de Vacinação contra a Gripe, realizada anualmente entre abril e maio.
Em 2026, a campanha utilizou a vacina quadrivalente — que protege contra quatro subtipos do vírus influenza (dois do tipo A e dois do tipo B) —, formulada com base na composição recomendada pela Organização Mundial da Saúde para o hemisfério sul naquele ano. A vacina é reformulada anualmente porque o vírus influenza sofre mutações constantes, o que significa que a vacina do ano anterior oferece proteção parcial ou nula contra as cepas circulantes no inverno atual.
Se você ainda não tomou a vacina deste ano e a campanha oficial já encerrou, procure a UBS — o estoque costuma permanecer disponível para atendimento de demanda espontânea mesmo fora do período da campanha, conforme nota técnica do PNI de maio de 2026. Em farmácias credenciadas, a vacina também pode ser adquirida com custo variável entre R$ 80,00 e R$ 160,00 por dose, dependendo da marca.
❗ Importante
Além da vacina contra gripe, pessoas acima de 60 anos devem verificar se estão com a vacina antipneumocócica em dia. Ela protege contra o Streptococcus pneumoniae, a bactéria mais comum nas pneumonias que complicam casos de gripe. O calendário do adulto prevê duas doses (PCV13 e PPSV23), disponíveis gratuitamente no SUS para essa faixa etária. Consulte a carteira de vacinação ou pergunte na UBS.
Quando a gripe vira emergência: sinais que exigem pronto-socorro
A maioria dos casos de gripe pode ser acompanhada em casa, com repouso, hidratação adequada e, quando prescrito pelo médico, antiviral à base de oseltamivir (Tamiflu) — mais eficaz quando iniciado nas primeiras 48 horas dos sintomas. Mas existe um conjunto de sinais que indica que a doença está evoluindo para algo mais grave e que exige atendimento de emergência sem demora.
Procure o pronto-socorro imediatamente se aparecer qualquer um destes sinais:
- Falta de ar ou dificuldade para respirar — mesmo em repouso, mesmo leve
- Dor ou pressão persistente no peito
- Febre acima de 39°C que não cede com antitérmico após 4 horas
- Confusão mental, desorientação ou dificuldade para acordar
- Lábios ou unhas azulados — sinal de hipóxia (falta de oxigênio)
- Vômitos persistentes que impedem hidratação
- Piora súbita após melhora inicial — padrão clássico de pneumonia bacteriana secundária
- Glicemia descontrolada em diabéticos — infecções elevam a glicose mesmo sem comer
⚠️ Atenção
Após os 60 anos, a febre pode ser menos pronunciada mesmo em infecções graves — o sistema imunológico menos reativo nem sempre produz o pico febril esperado. Isso significa que a ausência de febre alta não descarta pneumonia. Falta de ar, prostração intensa e confusão mental são sinais de alarme mesmo sem temperatura elevada. Não espere a febre subir para buscar atendimento se outros sinais estiverem presentes.
Cuidados práticos para o inverno: o que realmente funciona
Além da vacinação e da vigilância com os sintomas, existem medidas cotidianas que reduzem concretamente o risco de contrair e de agravar infecções respiratórias no inverno.
A ventilação dos ambientes é a mais subestimada. O inverno leva as pessoas a fecharem janelas e portas — e o vírus influenza se espalha por gotículas e aerossóis que se concentram em ambientes fechados e mal ventilados. Abrir as janelas por pelo menos 10 a 15 minutos pela manhã e à tarde, mesmo no frio, renova o ar e reduz a concentração viral. Em transporte público, ônibus e metrô, mantenha máscara cirúrgica em dias de sintomas respiratórios — tanto para se proteger quanto para não transmitir.
A hidratação é frequentemente negligenciada no inverno porque a sensação de sede diminui com o frio. Mas as mucosas das vias aéreas precisam de umidade para funcionar como barreira eficaz contra vírus. O mínimo de 1,5 a 2 litros de líquidos por dia — água, chás sem açúcar, caldos — mantém essa proteção ativa. Umidificadores de ambiente, especialmente no quarto durante a noite, ajudam a compensar o ressecamento do ar que os aquecedores provocam.
💡 Dica
Mel com limão não trata gripe — mas alivia sintomas reais. A mel tem propriedade antisséptica leve e cobre a mucosa da garganta irritada; o limão fornece vitamina C com efeito antioxidante. Uma colher de mel dissolvida em água morna com suco de meio limão, três vezes ao dia, é um recurso seguro e sem contraindicação para a maioria das pessoas. O que não funciona: antibióticos — gripe é viral e antibiótico não age sobre vírus.
ℹ️ Saiba mais
O oseltamivir (Tamiflu) é antiviral disponível gratuitamente nas Unidades de Saúde do SUS para grupos de risco, incluindo pessoas acima de 60 anos, mediante prescrição médica. Ele reduz a duração e a gravidade da gripe quando iniciado nas primeiras 48 horas dos sintomas. Não espere o quarto ou quinto dia para procurar atendimento — nesse ponto, o antiviral já perde boa parte da eficácia.
O inverno de 2026 começou oficialmente em 21 de junho e vai até setembro. Se você ainda não tomou a vacina contra gripe este ano, ligue agora para a UBS mais próxima e verifique a disponibilidade. Se tomou, verifique se a vacina antipneumocócica está em dia. E se aparecer febre com dor muscular intensa e início abrupto — não espere melhorar sozinho por mais de 48 horas. Na gripe, as primeiras horas definem o desfecho.


